Tem Gente Desenvolvendo Jogos Para o Game Boy em 2025
Nos tempos remotos de 2008 trabalhei pela primeira vez em um estúdio de games como estagiário de arte. Lá, participei do desenvolvimento de um jogo de RPG para celular quando a maioria deles, no Brasil, ainda fazia parte da era pré-smartphone. Os melhores da época rodavam joguinhos simples o suficiente para que os botões numéricos bastassem para controlar personagens e ter respostas rápidas em um dispositivo que mal tinha tamanho para ser segurado com duas mãos. Por isso, os gráficos tinham limitações próximas às de jogos de Game Boy Color, construídos com tiles de poucos pixels.

Além de me ensinar a trabalhar com pixel art, aquele projeto também me mostrou como pode ser divertido trabalhar com jogos. Quando estava testando a primeira versão do jogo e caminhando com os personagens pelos cenários que eu tinha criado alguns dias antes, foi como se um sonho tivesse se realizado. Como se eu tivesse criado uma coisa de verdade, que se parecia muito com as coisas com as quais eu cresci e que me divertiram por incontáveis horas em telas pequenas alimentadas por pilhas. Isso, na minha cabeça, seria o mais próximo que alguém poderia chegar de criar um jogo para Game Boy tantos anos depois do console sair do mercado.
Um Jogo Brasileiro para o Game Boy Color
Um episódio do podcast Controles Voadores (o melhor para acompanhar notícias de jogos brasileiros que conheço!) me chamou a atenção pelo título: Toni Island Adventure: um cachorro marinheiro no Game Boy Color.
O que seria um jogo para Game Boy Color em 2025? Um jogo lançado em plataformas como a Steam que teria os visuais inspirados no portátil? Ou um jogo de celular que emulava o console?
Ouvindo o episódio, descobri que a verdade é que os produtores fizeram exatamente o que o título afirmava. Um jogo, que teve até uma versão em cartucho físico que funciona no Game Boy Color original. No podcast, Guigo, o game designer por trás de Tony Island, conta que começou a criar pela nostalgia e porque viu que uma nova ferramenta deixava o processo mais simples: uma engine chamada GB Studio.
Criando Jogos com o GB Studio
Quando o podcast terminou fui fazer duas coisas: procurar Tony Island e o GB Studio. Começando pela engine: ela foi criada por um desenvolvedor inglês, Chris Maltby, que a deixou disponível para download "gratuito" no itch.io (os pagamentos são abertos para contribuições definidas por você mesmo). A engine promete ser uma forma rápida de fazer jogos para o portátil usando ferramentas visuais, com baixa necessidade de conhecimento de programação. Pelo que Guigo comentou no episódio, parece que a proposta tem funcionado. Mas ele não está sozinho.
Procurando outros jogos indies de Game Boy pelo itch.io, encontrei o filtro “Criados com o GB Studio”. Enquanto escrevo esse texto, estão ali 1.420 jogos criados com a ferramenta, muitos dos quais até simulam o visual das embalagens originais dos anos 1990. Entre títulos originais, também estão adaptações de jogos de outras plataformas usando as mecânicas e visuais limitados do console. Entre eles encontrei um port de Disco Elysium, Zelda’s Adventure, Elden Ring (!) e até Tunic.
A maior parte deles é jogável diretamente no navegador, mas vários desenvolvedores oferecem a possibilidade de baixar ROMs que funcionam nos emuladores de Game Boy e arquivos que podem ser colocados em cartuchos. Alguns ainda vão além e lançaram seus jogos em cartuchos, caixas e manuais de instrução. Mas como fazer cartuchos quando eles não são necessários nem para consoles atuais?

Novos Publishers de Cartuchos
Essa é mais uma etapa desse processo que existe graças a pessoas apaixonadas por games. Enquanto os desenvolvedores têm o desejo de criar para consoles antigos como o Game Boy, empresas como a Bitmap Soft oferecem o apoio de uma publisher que trabalha com cartuchos físicos.
Baseados no Reino Unido, eles fazem parcerias com estúdios que têm interesse em lançar os jogos físicos, criam os cartuchos e vendem tudo em sua loja online. Além do Game Boy, também encontrei jogos feitos para outros consoles como Atari e Mega Drive.

Mas além deles, outros publishers e estúdios estão formando parcerias e criando jogos novos para plataformas como NES e Super Nintendo. A 8-bit Legit cuida tanto do desenvolvimento dos jogos quanto dos cartuchos. A Retrotainment Games, parceira da 8-bit Legit, expande ainda mais o catálogo.
Algumas dessas empresas relançam clássicos que talvez não estivessem disponíveis em todas as regiões do mundo no lançamento original. Em outros casos, até jogos que tinham sido desenvolvidos para uma plataforma específica e nunca viram a luz do dia ganham uma nova chance de vida. Enquanto a nostalgia ganha o mercado em outros formatos mais populares, como os discos de vinil, esses pequenos grupos de entusiastas mantêm a existência de um formato que, apesar de obsoleto, traz um outro tipo de relação com os jogos.
A Experiência de Toni Island Adventure
Depois de descobrir tudo isso, fui experimentar um desses jogos e comecei por Tony Island Adventure.
A Frolic Studio lançou o jogo como cartucho para alguns apoiadores, mas também está à venda em plataformas como a Steam. Foi por lá que peguei a minha cópia e, depois de perguntar ao perfil do estúdio nas redes sociais se eles planejavam vender a ROM também, fui surpreendido novamente: na pasta de instalação do jogo lá estava ela, pronta para ser usada em um emulador de Game Boy Color.
Como o jogo foi feito para um dispositivo com telas muito menores do que as que temos hoje, resolvi jogá-lo no emulador do celular (usando um controle externo, não me dou bem com a tela touch).
O resultado foi uma experiência nostálgica. Me sentei no sofá e mergulhei em um novo mundo com cidadezinhas mostrando suas identidades através dos poucos pixels disponíveis, trilhas sonoras originais que ao mesmo tempo carregam lembranças de clássicos do Game Boy (como Pokémon), textos de frases curtas em letras pixeladas e diálogos divertidos e improváveis.
O jogo se aproveita das melhores mecânicas que o poder de processamento daquele console de bolso que já tem mais de 30 anos (!) consegue oferecer, às vezes lembrando Zelda nos combates e puzzles, às vezes Pokémon, como nas cidades, lojas e pizzarias que têm suas características únicas. Também vi um pouco de Harvest Moon com a arte constantemente se adaptando ao horário do dia, mudando suas cores e seus destaques.
Além da diversão, foi muito satisfatório ver um jogo escrito e disponível em português para um dispositivo que viu pouquíssimas traduções. O único que me lembro de ter jogado é Harry Potter e a Pedra Filosofal, cujo jogo de Game Boy pra mim continua sendo o melhor da série (além de ter saído em 2002, quando a J.K. Rowling não tinha se revelado uma transfóbica raivosa e eu ainda vivia muito encanto por todo aquele universo).
Quer Jogar?
Se você ficou curiosa, recomendo mergulhar na biblioteca do itch.io e experimentar alguns dos títulos disponíveis. Aliás, muito além de jogos para Game Boy, a plataforma tem obras de arte digital criadas por pessoas realmente apaixonadas por games.
Também deixo aqui o link para Tony Island Adventure na Steam e no itch.io.